O teletrabalho, agora um privilégio, e um direito

Editorial de Pierre Guibentif para a Newsletter #58 Fev - Mar 2020 



Os próximos dias são demasiado previsíveis; os próximos meses totalmente imprevisíveis. Alguma margem para agir, e pensar como agir, poderá existir no horizonte das próximas semanas: o intervalo entre dois números desta Newsletter. Um pretexto para tomar a sua feitura como ponto de partida da reflexão.



Primeira constatação: faz-se como já se faz há muito tempo: por teletrabalho. Formatos indicados por uma aplicação em linha; projectos que circulam e são melhorados até a luz verde e a difusão, tudo por e-mail. Ninguém encontra ninguém. Confinamento – avant la lettre (antes de a coisa ser nomeada) – nos nossos gabinetes. Segunda constatação: as ferramentas são as mesmas, mas o contexto é completamente diferente; e fica tudo mais difícil. Faltam as rotinas do gabinete, os encontros nos intervalos, os palavrões dos futebolistas no terreno próximo, as idas às instalações do DINÂMIA’CET (D’C) para acertar presencialmente um último pormenor. Em suma, falta a sociedade.


Felizmente, sucederam-se recentemente dois eventos que nos deram magníficas condições para promover o encontro e interconhecimento entre os investigadores do D’C. Mesmo a tempo de guardar algumas "reservas de convívio". O empenho de um conjunto de jovens investigadores - que tomou a iniciativa de organizar a 6 de Fevereiro um "SunCet", fim de tarde convivial, e assegurou a montagem do encontro de reflexão estratégica dos investigadores do D'C, a 15 de Fevereiro - foi fundamental. Aqui lhes reiteramos os nossos agradecimentos, agora com um novo motivo, de excepção.


Por algumas semanas - ou mais? - terá que ser sem sociedade presente. Ora, não se age sem testemunho, sem destinatário, sem sociedade. Sabíamo-lo em teoria e agora sentimo-lo na prática. Logo, a questão é: como construir uma experiência actual da sociedade, estando cada um(a) em sua casa? O teletrabalho poderá ter aqui um papel determinante, não apenas pelas possibilidades tecnológicas de comunicação, mas também pelos significados da sua prática. Em particular, dois significados:


Deveremos praticá-lo com a consciência das desigualdades entre os que o podem praticar e os outros. As desigualdades no acesso às tecnologias requeridas, ou ao emprego. Mas ainda, merecendo nestes dias uma menção especial, as desigualdades entre os que ficam (querendo ou não) em casa obedecendo à ordem de se proteger, e os que recebem a ordem de continuar as suas actividades habituais, expostos a riscos muito maiores por desempenhar actividades de relevância estrutural: profissionais de saúde, naturalmente, mas também profissionais envolvidos na produção e distribuição de bens de primeira necessidade, no tratamento do lixo, etc. Desigualdades que se deverá procurar reduzir e compensar, mas, em primeiro lugar e desde já, reconhecer.


E deveremos, nas circunstâncias actuais, praticar o teletrabalho com a noção de estar, não apenas a cumprir obrigações ditadas por determinado cliente ou entidade patronal, mas também a exercer um direito. Um direito implícito, transversal aos direitos humanos hoje formalmente reconhecidos: o direito a contribuir para a produção da sociedade, à nossa maneira, como indivíduos criativos. Fechados em casa podemos conceber a difícil conciliação das expectativas familiares com as exigências do teletrabalho como a realização deste direito. Fechados em casa, em contacto apenas virtual com os nossos contemporâneos, podemos, graças ao teletrabalho, continuar a exercer este direito para além da família, e, logo, a fazer parte da sociedade. Ou melhor dizendo: a participar no fazer da sociedade – o que vai ser crucial face às mudanças que se avizinham.

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