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Impacto Social da Ciência – ou as formas de relação entre a Ciência e a Sociedade

Atualizado: 23 de fev.




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Editorial da Newsletter DINÂMIA'CET-Iscte #83







Num momento em que assistimos à crescente disseminação da proposta de um modelo de Sociedade do Conhecimento, a ciência é cada vez mais mobilizada para produzir a evidência necessária à formulação de políticas públicas fundamentadas. Esta forma de relação entre a ciência e a sociedade – e que se traduz especificamente na interacção entre ciência e política - pede assim, cada vez mais, dispositivos de monitorização e de avaliação do trabalho que se desenvolve em centros de investigação e universidades. A formulação impacto social pretende dar conta de algumas das dimensões implicadas nesta interacção, nomeadamente das formas como a ciência e o conhecimento produzido efectivamente influenciam, fundamentam, ou intervêm nas soluções propostas para problemas societais. Mas para além desta perspectiva da ideia de impacto social - que encontra a sua linhagem, precisamente, na tradição do aconselhamento científico ou sience for policy que vem sendo consolidada de forma mais acentuada desde a segunda metade do século XX – aquilo a que temos vindo a chamar «agenda do impacto» radica hoje, também, na evolução dos modelos de financiamento que as políticas públicas para a ciência têm vindo a implementar, um pouco por todo o mundo, e que procuram na densificação da noção de impacto social medidas para a avaliação dos actores e entidades dos sistemas científicos.


Parte do trabalho de um centro de investigação passa, assim, por pensar as formas como estabelece, intencionalmente, estas relações com a sociedade, de formas mais directas ou indirectas, a partir das agendas científicas da sua especialidade. No caso do DINÂMIA'CET-Iscte, a Linha Temática Reflexividade, Comunicação e Responsabilidade Social da Ciência, coordenada por nós, tem procurado desenvolver reflexões a propósito desta relação multifacetada.








Não obstante termos assistido, desde 2020, a uma miragem de abrandamento das  agendas científicas na sequência da disrupção causada pela pandemia de COVID-19, o certo é que não assistimos à consolidação desse movimento, tendo-se mantido com a mesma intensidade o imperativo do comentário imediato, da acção urgente e da exigência de respostas colectivas e consensuais – muitas vezes com a expectativa de contributos interdisciplinares e transdisciplinares – mas sem o tempo que seria necessário particularmente para alguns desses contributos, como aqueles das Ciências Sociais e Humanidades.



A transformação das formas de avaliação do trabalho científico de centros de investigação interdisciplinares, como o DINÂMIA'CET-Iscte, onde os vários contributos das Ciências Sociais são necessariamente mobilizados para o estudo das transformações sociais, acarreta desafios particulares e contradições intrínsecas.



Por um lado, o trabalho desenvolvido poderia ser potenciado num sistema que valorizasse os tempos longos, promovendo a consolidação de competências de investigação ou a reflexividade científica e individual dos investigadores; mas, por outro, as respostas são necessárias com urgência, os recursos são escassos, o trabalho mantém-se precário e o foco pode mudar a qualquer momento.



A avaliação do impacto social da investigação hoje pede a formulação de narrativas, de casos de estudo e histórias de sucesso, o envolvimento de actores tradicionalmente exógenos ao processo de produção de conhecimento científico, e a consolidação de modelos de impacto próprios de cada centro e de cada actividade.



Pede-se que seja identificado de forma clara o problema a ser enfrentado, a estratégia para o contributo proposto e a monitorização da mudança conseguida no final do processo. Assistimos, assim, a uma resposta paradoxal às críticas que nas últimas décadas têm sido dirigidas ao excessivo pendor quantitativo dos processos de avaliação, pois, por um lado, a «agenda do impacto» procura agora incluir abordagens qualitativas de avaliação, mas simultaneamente exige demonstrações quase silogísticas e científicas da produção efectiva de impacto social que se tenta categorizar e captar em qualificações aparentemente objectivas. Não parece, portanto, que a tensão perene entre a discricionariedade própria de muitas abordagens qualitativas e as exigências desproporcionadas das métricas quantitativas esteja em vias de ser adequadamente atenuada.


Neste contexto de escassos pontos de fuga, importa reflectir estrategicamente sobre as melhores abordagens aos critérios de avaliação do impacto social do trabalho desenvolvido pelos investigadores do DINÂMIA'CET-Iscte sem comprometer a sua especificidade, resistindo ao esmagamento dos critérios bibliométricos e valorizando o contributo da investigação interdisciplinar sobre a mudança social e económica, sobre o território, ou sobre o trabalho.


Nos últimos anos, o DINÂMIA'CET-Iscte tem apostado na intensificação da transferência de conhecimento para a sociedade, envolvendo actores sociais e organizações exógenas à Academia; produzindo policy papers e construindo novas metodologias que possam produzir evidência útil à criação de novas políticas públicas; organizando workshops com autoridades locais; aumentando a sua presença em domínios de acesso aberto a publicações em órgãos da comunicação social nacional; desenvolvendo trabalho de consultadoria com entidades públicas e privadas; participando em eventos em todo o território nacional; assim como organizando exposições, conversas, apresentações e sessões de trabalho com outras entidades e actores, e noutros locais fora das paredes da Academia tradicional.


A avaliação do impacto das próprias políticas públicas também tem sido objecto de um forte investimento no DINÂMIA'CET-Iscte, desenvolvendo ferramentas específicas; fomentando o debate e monitorizando as relações entre as diferentes esferas da sociedade em torno de problemas particulares, como a habitação, emprego jovem, digitalização, entre outros.


O envolvimento da ciência com a sociedade também tem sido feito de forma experimental a partir do envolvimento das artes e da cultura, organizando exposições e intervenções urbanas; estudando práticas de adaptação criativa às transformações societais; ou trabalhando nas fronteiras entre intervenção artística urbana e a participação cidadã, através da investigação-acção, apostando no empoderamento dos participantes e na democratização das ferramentas científicas.


Fotografia: Hugo Cruz


Estes exemplos, entre muitos outros trabalhos, dão-nos conta do desenvolvimento de uma estratégia tripartida multinível, onde no primeiro nível está um impacto social mais indirecto, que aposta numa disseminação de resultados que obedece aos critérios de excelência científica; num segundo nível, um conjunto de trabalhos cujo impacto social está mais focalizado na aplicação dos resultados e na sua relevância para a acção; e um terceiro nível, onde as fronteiras entre o que é desenvolvido pela ciência e pela sociedade ficam mais difusas, mais focado na co-produção de conhecimento, com maior implicação das várias partes no desenvolvimento dos resultados, e um envolvimento mais aprofundado com a co-construção de resultados.


O desafio passa agora por reflectir, e implementar, critérios próprios para a avaliação destes trabalhos, que não comprometam as suas especificidades, e que não concorram para a redução desta diversidade – rica em complementaridade – apenas a uma das suas três formas. A ciência não tem de ter uma forma preferencial, é múltipla, é rigorosa, é criativa, e é uma das melhores formas que temos – sendo apenas uma delas – de conhecer, de construir hipóteses, de testar, de pensar e de reflectir criticamente sobre o Mundo e as suas transformações.


Pensemos, assim, uma estratégia de impacto social que reflicta o sentido mais radical que social pode ter, reclamando a sua dimensão colectiva, relacional e, também, laboral; e um impacto que não se possa nunca reduzir apenas a uma mensurabilidade asséptica, mas que valorize a riqueza do múltiplo e do específico, e que faça do impacto social do DINÂMIA'CET-Iscte uma questão de qualidade.


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